Este artigo é de minha autoria, em parceria com a blogueira-cinéfila Larissa Guerra. Autorizamos a reprodução do material, com a devida publicação dos créditos — por gentileza (e obrigação!).
GUERRA, Larissa V. ; TIETJEN, Larissa L.
Cineclubes brasileiros: o ressurgimento do circuito alternativo
Com pouco mais de um século, a arte cinematográfica é, certamente, uma das ferramentas mais eficazes de transformação da sociedade. Nos primórdios do cinema, quando os irmãos Lumiére lotaram os teatros parisienses para exibir pequenas projeções, pouco se acreditava que uma criação dos tempos modernos pudesse exercer tamanha influência no cotidiano do homem.
Nos primeiros anos de sua existência, a mistura de magia e tecnologia espantou apreciadores das artes, que estavam habituados às peças de teatro, óperas e exposições de consagrados pintores. O escuro da sala de projeção, tendo ao fundo o contínuo ruído do exibidor, firmou um sistema de produção que, anos depois, seria considerada a maior indústria de entretenimento do planeta: o consumo do cinema democratizou o acesso a um segmento cultural efervescente e, especialmente, transformou-se em distração fácil e barata para as populações.
Com a nova fase do capitalismo, marcada pela globalização da economia, o cinema se firmou como uma atividade comercial com alta expectativa de lucro no mercado. Criaram-se pólos de produção, como Hollywood, nos Estados Unidos, e Bollywood, na Índia, que repetem incansavelmente suas fórmulas de roteiro e elenco. Todas de sucesso. Exemplo disso são as séries de longas metragens que tratam de assuntos semelhantes, como filmes de aventura, comédias românticas e musicais.
O filme, enquanto espetáculo, na metade do século XX, teve um significativo aprimoramento de suas técnicas, com maior nível de realismo e facilidade de apreensão dos espectadores. As salas de projeção reuniram multidões em todo o mundo, e a linguagem desvinculada dos vícios teatrais abordava as tensões de uma geração mergulhada em crises, guerras e os primeiros suspiros da globalização.
“Os cafés, circos e teatros foram os primeiros espaços destinados à projeção de filmes. O espaço de uso múltiplo era uma tradição e nele encaixava-se a última novidade. Algumas salas eram chamadas por Politeama, termo originalmente grego, polytheama, usado para designar um teatro destinado a apresentar vários gêneros de representação. Ironicamente, muitas dessas salas, em conseqüência do sucesso de público, teriam uso exclusivo para cinema. Em diversas cidades do Brasil, foi possível localizar até os anos 70, salas de cinema denominadas Cine Politeama” (LUCA, 2004, p.177)
Opondo-se a isso, nascem os Cineclubes, com a pretensão de mudar o processo ditado pelo sistema cinematográfico meramente comercial. No sul do país, os primeiros clubes de cinema alternativo surgiram em meados da década de 1940, no Rio Grande do Sul. E, desde a década de 1950 há registros de atividade cineclubista em Santa Catarina. Eles cresceram paralelos à atividade do cinema comercial que, de maneira cada vez mais rápida, adaptava-se às novas tecnologias do mercado.
“Os clubes de cinema nasceram como uma forma alternativa do Cinema sobreviver à televisão, pois em meados do século XX, principalmente após a Segunda Guerra, as grandes exibições cinematográficas estavam aos poucos perdendo interesse do grande público, com exceção de alguns grandes filmes (…)” (FERREIRA apud LEBER, 2008, p. 231)
Na visão de Ravanello (2006) “podemos verificar uma preocupação no sentido da formação cultural e política dos próprios cineclubistas, como requisito para a sua, digamos, função de agentes subversivos”. O autor explica que, além das sessões de cinema, os cineclubes também promoviam outras atividades tendo como finalidade a transmissão de informação cinematográfica, cultural e política. O que confirma o raciocínio dos apreciadores e estudiosos do cinema alternativo, que no ponto de vista de Ravanello, revela que, em alguns períodos, estes clubes se confundiam com movimentos sociais crescentes, pois eram práticas estreitamente ligadas a uma vontade de articulação tanto de protesto quanto de discussão propriamente cinematográfica.
Já na segunda década do século XX, havia insatisfação com os modelos estabelecidos pela indústria do cinema. Seus entusiastas estavam decepcionados com a submissão das organizações às regras de estúdios e distribuidores, revoltados com a censura e preocupados com a afirmação de um cinema nacional que retratasse culturas e modos de vida diversos, ao contrário do espetáculo armado, alienador e excludente que estampava milhões de telas. Esse descontentamento fez com que, pessoas em todo o mundo, procurassem alternativas viáveis de apreciação da já consagrada sétima arte.
“Entendendo que um filme deve explorar a função de divertir e ser um veículo promotor de cultura, informação e conscientização, além de, necessariamente, ter de ser acessível a todos, os cineclubes surgem propondo um novo modelo: comunidades formadas por alguma relação social se organizam acerca da escolha e da avaliação de filmes, dos processos de exibição e até dos processos de produção.” (RAVANELLO, 2006)
Nessa perspectiva, fica visível a influência da imagem e do som como ferramentas de educação, formação histórica e informacional que interagem com a gênese humana. Busca-se uma relação entre a concepção da sociedade pensante com a inquietação das novas questões do mundo moderno. Entra em cena a produção do cinema-identidade de grupos que fazem uso da razão para demonstrar aos olhos múltiplos das pequenas platéias a existência de cada um: objeto e observador.
“(…) entramos em uma nova etapa histórica que tem, para a humanidade, grandes repercussões sociais, intelectuais e religiosas. Passamos vertiginosamente de uma civilização verbal para uma civilização visual e auditiva. É esse caminhar do inteligível ao sensível que está caracterizando o novo processo cultural que vivemos”. (GUTIÉRREZ apud LEBEL, 2008, p. 227)
É importante salientar que, independente da circunstância e local que o filme será assistido, os cineclubistas devem considerar que há a necessidade de adequá-lo à proposta desejada. Para Modro (2006) é fundamental que os objetivos desejados com a devida exibição estejam claros e, além disso, traçadas maneiras de como alcançá-los. O autor lembra outro fator para ser levado em conta: a cultura cinematográfica dos espectadores — que pode variar de jovens com idade escolar à idosos apreciadores das artes —, já que filmes complexos demandam de um raciocínio mais desenvolvido e produzem bens simbólicos para a reflexão da realidade.
É curioso observar que, Leia o resto deste artigo »