Que Universidade queremos para nossos filhos?

By Larissa Tietjen

 

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Desde o início de março, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), é pauta de discussão na maioria dos veículos de comunicação das cidades catarinenses onde a instituição atua. A causa: o elevado número de demissões e cortes de verbas nos setores de Ensino, Pesquisa e Extensão que aconteceram nas últimas semanas. Aliás, o tema também percorreu as muitas conversas-de-corredor de professores, alunos e funcionários. De acordo com o reitor da Univali, professor José Roberto Provesi, a decisão, tomada em conjunto com os coordenadores dos Centros de Educação, foi baseada na previsão de receitas e despesas para 2008, que apontaram a “inevitável” redução dos gastos da universidade.

Diversos profissionais demitidos tinham 10, 12, 20 anos de trabalho!

Especialmente na área da Extensão, é possível perceber que há tempos existe uma constante redução da carga-horária dos docentes que ali estão envolvidos. Parece-me que a Univali esqueceu do seu compromisso social, afinal os professores têm um papel importantíssimo na formação da comunidade. É uma construção coletiva de conhecimentos. E a Universidade não é ‘qualquer lugar’, é onde este viés de troca deveria estar cada vez mais acentuado. Não passa de um dever de toda instituição de ensino investir, debater, manter e dar condições para estas atividades que, de certa forma, sustentam seu status de excelência.

Esses cortes não atingem somente o corpo docente, mas o próprio aluno que fica preso à rotina de ensino e ‘rodeado de tijolinhos a vista’. Pensando nisso, conversamos* com o Professor Doutor em História, hoje superintendente da Fundação Genésio Miranda Lins, José Roberto Severino. O papo foi curto (isso não significa que o texto é pequeno!), com idéias inteligentes e uma leitura do contexto que envolve estas questões da Univali.

* Fomos eu e Valéria de Oliveira, professora mestre em teatro. Edição da entrevista e fotos que ilustram o post são minhas.

Professor Beto, há um movimento de demissões na Univali bastante significativo e que atinge, sobretudo, os setores de Pesquisa e Extensão. Como compreender estas ações da universidade?
Beto Severino – A Extensão é um dos tripés da missão da universidade. Quando você demite membros de um núcleo da Extensão, reduz uma das suas características. Portanto, estamos mexendo no seu conceito. Qual é o conceito de universidade que se está pensando? Que ela tenha um lugar social, que ela seja uma universidade comunitária… A discussão é que todo debate de gestão, também seja feito de forma participativa. Não se pode visualizar a Univali no patamar de uma escola comum, ela não é. Não que não exija o respeito de uma escola privada, mas ela não é uma universidade privada, é uma instituição pública, comunitária. Ela não tem um dono, essa que é a questão. Acho que aí entra o nó da discussão. Se ela não tem um dono, o embate dela tem que ser transversalizado, e precisa de mais atores: quem demite, quem contrata… O que a comunidade espera da universidade? Não há uma justificativa pública disso. Quando é retirada ou diminuída a Extensão, a gente retira a ‘cara mais social’ da universidade, que transforma saberes e poderes lá desenvolvidos em agentes de transformação social.

Uma universidade que caminha administrativamente e que de alguma maneira pode fazer ruir um de seus pilares, acaba por comprometer sua excelência. Como fica a situação nas importantes áreas de ensino que trabalham com Pesquisa e Extensão?beto2.jpg
Beto Severino – O que eu estou propondo para se discutir é como não perder essa excelência. A Univali tem seus departamentos, a sua estrutura organizacional, ela é pré-organizada dentro do que a gente pode imaginar que ‘funcionaria’. Aliás, muita coisa funciona. Se nós pensássemos na sua relação com a sociedade, ela é eficiente, não é um lugar que as pessoas desacreditam. Os cursos possuem respeitabilidade social. Então, não é essa a questão de ‘qual é o papel’, ‘o que as pessoas enxergam’. O que é problemático é como que essas escolhas que são feitas estão esvaziando esse potencial que já pré-existe, os professores acabam indo embora, acaba-se perdendo um segmento inteiro.

Por exemplo, na área de Humanas a gente vê claramente um esvaziamento, uma limitação nestes setores. O problema começou no entorno da questão das licenciaturas. Temos ali um gargalo. Há uma demanda e aquilo conseguiu se organizar. Os cursos de Jornalismo e de Publicidade, estão se fechando num debate que é cada vez mais técnico em sua formação específica. Foram os cursos de Humanas que alimentavam esse debate comunitário e de pesquisa. História, Geografia, Letras são capazes de fomentar aquele espaço de pesquisa que não tem uma utilidade imediata, mas que contribui muito para arejar o ambiente de reflexão da universidade. E as pesquisas tanto no campo das Humanas quanto das Sociais Aplicadas precisam dessa relação, que é bem maior e que não é ilustração. Essas áreas acabaram sendo engolidas pela forma técnica como está sendo organizada a gestão do ensino na Univali.

A gente tem uma gestão de ensino onde os núcleos de licenciatura se criam em um ambiente forte, mas os ambientes da especialidade são extremamente enfraquecidos nas áreas de Humanas. Um fenômeno que atinge um Centro, atinge de forma diferente outro. No caso, os técnicos da Saúde se ressentem na perda ambos, de alguma parte tanto da pesquisa quanto da extensão. E a fatia da Extensão era muito superior na Saúde, muitos trabalhos, muitos cursos envolvidos com isso, no sentido positivo da capacidade de ofertas. Então, a perda de um segmento desses na Universidade, e do outro lado a forma como ela vem sendo organizada, pode levar a desaparecer exatamente a dimensão cultural, a dimensão dessa pesquisa mais avançada no campo das Humanas, de um trabalho de aplicabilidade muito verdadeiro de relação com a comunidade na Saúde. Acho que em isso tudo, há perda sim, e muito significativa.

E onde está o movimento que deve ser feito para que a Universidade não se afunde nesse viés que ela está — ou optou por seguir?
Beto Severino – Esse movimento não aconteceu. Não do ponto de vista trabalhista, da organização de classe, união, ele não se organizou especialmente para isso. Nem aconteceu, ou de forma muito fragmentada, no campo acadêmico. Há vários momentos da instituição. Acredito que por ela ter um caráter público muito forte, todas as mudanças que aconteceram agora estão vindo de 1991, 1992 pra cá.  Não quero acreditar que aconteceu ontem, não é isso. A gente vê um processo de transformação desde quando ela se tornou Universidade. Ela tinha promessas e vícios. Virou uma universidade com promessas de ser uma grande universidade e, de fato, é.

A Univali é uma instituição respeitada, mas com vícios também do tamanho do seu respeito. Talvez a gente pudesse criar mecanismos onde a gestão fosse mais compartilhada e menos centralizada, esse é um caminho. Acontece que há, desde o afastamento do poder municipal, do debate, da discussão pública, uma parcela de culpa da comunidade itajaiense que não se mobiliza. As pessoas não dão bola. Por que esta discussão não está na câmara de vereadores, por exemplo? Um grande número do público da universidade é composto por gente da terra e gente exatamente da classe operária, onde as pessoas podem estudar na sua cidade pagando muito pouco. Esse é outro debate que deveria ser feito: quem paga a conta da Universidade? Essa é outra discussão que tem que ser feita, mas misturar as duas não dá. Então, quando vocês me perguntam o quê aconteceu, eu acho que aconteceram muitas coisas em longa data, e não é de agora que a sociedade foi largando a Universidade cada vez mais para pessoas que são técnicos em administrar.

Mas a sociedade não foi largando a Universidade na medida em que ela foi se mostrando fortemente como um lugar privado e não público?
Beto Severino – Mas isso é uma forma de representar. Pessoas estavam falando sobre isso! Não precisam concordar, podem falar que é errado, é uma instituição pública, tem caráter público. Quem trouxe essa discussão da universidade à tona, independente de quem iria pagar a conta, quem fez surgir isso, foi um movimento que pedia uma universidade para Itajaí. Que podia ser federal, estadual e que no caso era municipal. O que estava sendo pedido era Ensino Superior, que a gente acabou de alguma maneira conquistando.

A Univali tem esse papel, ela é resultado disso. Minha discordância é que se tem gente que acredita em outra coisa, que abra uma universidade privada, com caráter privado. Agora estou falando de uma universidade que nasceu comunitária na sua gênese, ela é uma Fundação Municipal. O processo que a transformou em universidade foi dentro de uma discussão pública municipal, em uma cidade que pediu a universidade. Então, talvez a gente tenha que trazer esse debate novamente à tona, mais do que falar deste reitor ou daquele, estas pessoas todas que estão aí, elas fazem parte de uma discussão que foi de alguma maneira se perdendo no caminho. Eu acho que a gente consegue.

Qual a sua visão do papel do professor nestas situações e as maneiras possíveis de melhoras dentro da Univali?
Beto Severino – A sustentabilidade da universidade não é um debate que deva se ausentar do debate sobre que universidade nós queremos. Precisamos abraçar alguns caminhos — e um deles que eu tenho uma grande ressalva é o do ensino a distância, por exemplo. É uma ressalva, eu tenho muita dúvida e discordo das políticas educacionais sem uma infra-estrutura que dê conta do que ela oferece. Mas, isso é uma escolha administrativa também. E agora, como o debate se deu dentro de uma instituição, o que acabou acontecendo foi que mesmo que um departamento diga não, o professor tem que receber e pronto. Isso academicamente me parece uma imposição. Uma imposição no meio acadêmico ela é eticamente comprometedora. Torna o profissional um profissional menos capaz de fazer aquilo que ele foi contratado. Um professor que não consegue se expressar e ser ouvido é um mero operário de uma máquina que diz o que deve ser feito. No campo acadêmico, repito, é um lugar onde isso não é para acontecer. betoseverino.jpg

A universidade é um lugar onde a essência dela é exatamente essa capacidade de agregar diferenças e a resistência de idéias capazes de transformar. A Univali tem um papel muito grande com a educação na região e já esteve mais envolvida, por exemplo, na formação cultural da região, e ela tem um potencial que eu acredito pouco explorado neste aspecto. A instituição não conseguiu fazer com que os municípios e ela casassem interesses, por exemplo, nesse campo de educação porque ele de alguma maneira salvaria os cursos da licenciatura da situação que eles estão, uma política de uma região inteira, e isso tem vários motivos de não ter acontecido. Mesmo sendo formadora desses profissionais a Universidade ainda não consegue fazer uma política no campo da Extensão e da Pesquisa que fizesse de todo o ciclo, um ciclo produtivo para a educação, para todos. As discussões precisam ser ampliadas naquilo que a gente chama de participação. Senão a gente perde o horizonte do sonho. 

 

6 Respostas para “Que Universidade queremos para nossos filhos?”

  1. Ruca Souza Diz:

    Só lembro de uma música agora, que diz (berra) assim:
    “Do the evolution, baby!”

    “Evolution”, do Pearl Jan.
    Se ver o clipe vai entender.

    É isso ai, nega! Uhhul!
    Como diz a vó: Continue assim, minha filha

  2. Ulisses Adirt Diz:

    Bela entrevista… Mandou mto bem.

  3. Inagaki Diz:

    Parabéns, Larissa. Ótima e esclarecedora entrevista sobre um assunto pra lá de relevante, em especial para um país como a nossa sofrida Terra Brasilis.

  4. Larissa Guerra Diz:

    Larilssa, que orgulho de vc!

  5. costadessouza Diz:

    nossa, foi tu ( e a Valéria) que fizeram essa entrevista? Parabéns? Muito boa pelo ineditismo, assim, num espaço tão aberto. Mostra que vale a pena ler o teu blog, que ele tem conteúdo próprio. Me formei em Jornalismo na Univali e admiro o professor José Roberto Severino. Muito bom ler a entrevista.
    sucesso com o blog!

  6. mord Diz:

    Gente, sou fã declarada do Severino, portanto adorei a entrevista :)
    Keep it up, Larissa :***

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